Dez Dias

Dez Dias. Não. Não, decididamente não é um livro em que o leitor leva, necessariamente, dez dias para consumir, do começo ao fim, a história que, nele é guardada. Para começar, eis aqui um enredo que se aventura no que, há muito tempo, foi classificado como minoria. Ou pior, como marginal.

Em um país que lidera o ranking de morte relacionado ao público LGBT, tal como apontam dados do Trans Murder Monitoring e do Grupo Gay da Bahia, com índices que indicam um falecimento a cada 34 horas, ter essa parcela populacional representada de forma tão leve e sensível por Marcelo Soldi, um autor de olhares profundos e detalhados, pode ser visto como um verdadeiro presente. Afinal, mais do que uma simples história, Dez Dias leva o leitor para o mundo da paixão, do amor e da confiança em mostrar a sua essência ao mundo.

Acompanhando a história de um garoto que, ao viajar para Nova Iorque para viver um seminário de dez dias, na Universidade de Columbia sob a temática de direito e negócios, com suas duas melhores amigas, conhece o menino por quem descobre os verdadeiros significados de amor e paixão, o leitor se depara com subtemas que vão muito além do próprio romance.

Dissecando a terminologia de amizade, confidência, respeito, identidade, liberdade e autoconfiança, o livro se destaca por ser rico em todas as descrições que o autor faz. Das sensações de caminhar pelas movimentadas ruas de Nova Iorque aos sabores das iguarias consumidas pelos personagens, a publicação também pode ser vista como uma profunda viagem sensorial.

Prendendo o leitor nas mais diversas experiências vividas pelas personagens, tais como os passeios no Central Park, os restaurantes, as paisagens, a Broadway e todo o cenário que abrange Manhattan e os diversos bairros da cidade que nunca dorme, o livro tem, como o centro de sua narrativa, a relação de dois garotos iniciada por um match de aplicativo de relacionamento.

A partir daí, cada experiência e cada sensação por eles vividas são muito bem descritas pelo autor, de forma a fazer o leitor de fato viver desde as alegrias até as dores. Afinal, com o relacionamento tendo um prazo bem definido para expirar, uma vez que ambos, apesar de estarem na mesma cidade, moram e são de países diferentes, os garotos fazem de tudo para viver tudo o que precisam na forma mais intensa possível.

Nesse meio tempo, claro, existem desavenças, ciúmes e decepções que colocam uma peça importante no caminho. Um outro garoto que, após um ápice de carência e desespero do protagonista, começa a assumir, por ele, um amor platônico que o faz assumir comportamentos abusivos, obsessivos e agressivos. É aí que o leitor fica apreensivo para acompanhar como o casal principal irá lidar com esse novo entrave.

Com sua trama que se estende por pouco menos de 400 páginas, Soldi constrói um enredo sólido marcado por uma leveza contagiante. Mesmo os 10 erros de concordância pincelados em meio às suas páginas não atrapalham em nada o discorrer do romance, que destaca, ainda, como já foi salientado, o valor e o peso das amizades verdadeiras.

Nesse aspecto, muito mais do que amizade entre o trio de amigos, o leitor consegue capturar até mesmo um comportamento maternal que as duas meninas têm com relação ao protagonista. Sempre torcendo pela sua felicidade, mas também prontas para defendê-lo de qualquer adversidade, elas são como a consciência e, muitas vezes, a voz da razão que soa em um tom de consolo e conselho para com o personagem principal.

Dez Dias é, portanto, um livro leve e de fácil leitura que atiça o olfato e as papilas gustativas, mas que, em sua essência, aquece o coração, umedece os olhos e mostra que o amor é a chave da liberdade, do respeito, da confiança e, acima de tudo, da completa autoaceitação. Um brinde à obra de estreia de Marcelo Soldi.