Qualidade do humor retrocede no Brasil, mas este continua exercendo sua função de dispositivo de poder sócio-político

Para especialista, porém, acreditar em um caráter libertário inabalável por parte do fazer cômico é ingenuidade

A condenação de Leo Lins a oito anos em regime fechado pela 3ª Vara Criminal Federal de São Paulo, ao reascender a discussão acerca da liberdade de expressão, destacou, uma vez mais, o papel do humor como um poder opinativo. Ainda assim, esse meio de manifestação se percebe refém das mudanças sofridas pelo pensar social. 

Uma vez que o humor é um elemento variável do entretenimento social, o consenso do riso evidencia desde o rechaço à aceitação de certas piadas ao rechaço da proibição das mesmas. Nesse sentido, a atividade cômica de uma época é reflexo dela, e ambas são tão abrangentes para terem representações hegemônicas a partir dos grupos dominantes daquele tempo e espaço. 

Para a antropóloga Juliana Sechinato, um limite moral e ético, nesse contexto, soa tão questionável quanto pode ser o próprio humor. “Não interferir no escopo social seria não questionar esse escopo, esses conceitos morais e éticos”, indica. “E aí talvez o humor literalmente perderia a sua grande graça e esvaziaria seu caráter político”, especula. 

Ainda assim, para o sociólogo do Programa de Pós-graduação em sociologia da UFSCar, Jorge Leite Jr., a questão não é tão somente se o tema se configura como tabu ou grotesco. A questão é avaliar, nesse sentido, se o fato de ser tabu reforça ou critica injustiças. 

De acordo com o profissional, fazer uma piada que ridiculariza a vítima de uma violência é totalmente distinto de fazer uma piada que ridiculariza o violentador, pois o imaginário social que é reforçado e os valores que são reproduzidos são totalmente distintos em cada caso. “Acreditar que o humor é sempre libertário, em muitos casos, é mais do que ingenuidade, é má-fé”, alerta. “É assumir conscientemente um compromisso com a discriminação e a opressão”, observa. 

Ainda que o humor, a partir daí, seja enquadrado como uma espécie de retrocesso à evolução social, o caso da condenação do humorista Leo Lins ultrapassou as fronteiras do Brasil e ganhou espaço em noticiários estrangeiros, como The Washington Post, El País e Clarín, os quais defendem a ideia de que o processo do comediante põe em risco a democracia no Brasil. 

A democracia, aqui, significa avanços civilizatórios e a defesa destes avanços. O humor, então, não apenas expressa relações sociais vigentes e suas lutas internas como é, também, uma arena em que valores antigos e novos embatem entre si. “É por isso que, conforme uma sociedade muda, o que é considerado risível e engraçado muda também, ainda que esse processo nunca aconteça de maneira tranquila”, esclarece Leite Jr.. 

Como exemplo disso está um recorte temporal vivido pelo Brasil no início dos anos 2000. Foi naquela época que, de acordo com ​o sociólogo do Programa de Pós-graduação em sociologia da UFSCar, uma série de grupos sociais até então subalternizados conquistaram direitos e visibilidade, fosse por via políticas, como as ações afirmativas nas universidades públicas, fosse na mídia, com representações não caricaturais e mais humanizadas da população LGBTQIAPN+. 

Esse movimento fez surgir humoristas que trazem consigo uma bagagem arcaica formada por piadas de cunho sexista e homofóbico. De acordo com o sociólogo, foi justamente nesse período que Leo Lins começou a construir sua escalada de notoriedade no mundo do stand up brasileiro, adotando, precisamente, esse tipo de discurso em suas piadas. “Pode-se criticar a pena imposta ao humorista, mas não é mais possível questionar se piadas que reforçam preconceitos sejam entendidas como discriminação”, reforça. 

Nesse aspecto, a antropóloga Juliana Sechinato salienta que, no palco, o humor também é dispositivo de poder e que, de alguma forma, sempre encontra seu público. “Quem é aplaudido, tem sua narrativa legitimada, seja ela qual for”, observa. Ainda assim, conforme aponta Leite Jr., existe um elemento fundamental da comédia, especialmente no que tange a comédia cênica, que é o chamado timing. 

Ele consiste no momento exato da piada e consegue fazer com que ela perca seu efeito se proferida em um momento errado. “O que esses ditos humoristas que fazem piadas discriminatórias perderam é o timing histórico”, conclui Leite Jr..