Fenômeno reborn cria realidades alienantes que enfraquecem as fronteiras entre o real e o fictício

Relação com bonecos ultrarrealistas é observado como um método para suprir carências emocionais. Às vezes, porém, essa conexão foge do contr

As bonecas ultrarrealistas, um produto de consumo com apelo de exclusividade, feito à base de insumos importados como vinil siliconado e moldes esculpidos, apesar de em alta, não consistem em um fenômeno atual. Existente desde a década de 90, esse mercado ganhou aspecto de renascimento em países como Estados Unidos, Austrália, Canadá e até mesmo o Brasil. No país, o agora chamado fenômeno reborn, adquiriu, em maio, destaque nas manchetes. 

Naquele mês, um vídeo, feito pela influenciadora digital Carol Sweet, mostrando um ato tido como o parto de um bebê reborn, ultrapassou a marca de 3 milhões de visualizações. Saindo das telas, a Bahia presenciou, no mesmo período, a efetivação de um processo movido por uma secretária contra a empresa em que trabalhava após ser ridicularizada ao solicitar licença-maternidade e auxílio salário-família para cuidar de um bebê reborn, solicitações, essas, negadas pela companhia. 

De acordo com a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, ainda que esse evento não englobe a maioria feminina, uma vez que a grande parte das consumidoras desse produto seja de colecionadoras com consciência de que se trata de um produto, existe uma parcela que cria um alto grau de dependência em relação aos bonecos ultrarrealistas. “Essas pessoas que fogem da realidade e do controle precisam de cuidados e de encaminhamento para um profissional da saúde mental”, indica Rafaela. 

A afinidade com objetos inanimados, porém, não é direcionado apenas aos bebês reborn. Homens e mulheres comuns já têm afeições e apegos a diversos objetos. No entanto, é com os bonecos ultrarrealistas que, no que tange o feminino, o afeto pode estar ligado a um desejo não alcançado para com a maternidade. “O bebê reborn, então, funciona como um objeto transicional, um símbolo daquilo que a mulher quer conquistar”, explica a psicóloga perinatal. 

Os desafios acontecem quando essas questões ultrapassam o ambiente do íntimo do indivíduo e acabam atingindo a esfera pública. Nesse momento, o âmbito legal se sente na necessidade de agir. Diante desse cenário, cerca de 30 projetos contra bebês reborn foram apresentados nas esferas federal, estadual e municipal. 

Em Ribeirão Preto (SP), foi sancionada, em junho, uma lei que, de autoria do vereador Igor Oliveira (MDB), prevê multa de R$ 3.702 a qualquer um que fizer uso de bonecos ultrarrealistas para obter vantagens destinadas a crianças de colo em serviços públicos e privados. Além dessa ação, outros PLs seguem em tramitação. 

O deputado Zacharias Calil (União-GO), por exemplo, protocolou um projeto de lei que prevê multa de até 20 salários mínimos a quem fizer uso do bebê reborn para adquirir benefícios destinados a crianças ou bebês reais. Na mesma linha, está o PL do delegado Paulo Bilynskyj (PL-SP), o qual proíbe o atendimento desses bonecos nas unidades de saúde públicas e privadas, bem como as conveniadas ao SUS. Tal iniciativa indica multa de R$ 50 mil e até mesmo demissão aos profissionais de saúde e servidores que infringirem essas respectivas determinações. 

Somando a isso, ainda, de acordo com levantamento feito pela startup de inteligência de dados governamentais Inteligov, sob requisição do UOL, em maio, havia cerca de 25 propostas nesse sentido tramitando na Câmara dos Deputados. Nas assembleias legislativas de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba, Espírito Santo e Alagoas, bem como nas câmaras municipais de Salvador, Curitiba, Cuiabá, Vila Velha (ES), além de mais seis cidades paulistas, esse cenário se repete. Dois PLs, em especial, se destacam pelo seu viés psicossocial. 

De autoria da deputada Rosângela Moro (União-SP), o projeto de lei 2323/205 prevê ações cujo intuito é acolher pessoas com sofrimento mental que apresentem dependência em relação aos bebês reborn. Na mesma linha, está o PL 5357/2025. Criada pelo parlamentar Rodrigo Amorim, a proposta prevê, através de convênios, ONGs, instituições públicas e privadas de ensino, além de universidades e setores da sociedade civil, auxílio psicológico, além do fornecimento de informações e orientações sobre os perigos do uso de bonecos ultrarrealistas como meio de fuga da realidade. 

Segundo Amorim, quando o fenômeno dos bebês reborn deixou de ser, em sua opinião, uma moda de internet ou mesmo ostentação fomentada pelas redes sociais, a relação com os bonecos ultrarrealistas saiu do controle. “Quando percebi que os casos de pessoas adotando bonecos deixaram de ser isolados e passaram a ser recorrentes, protocolei esse projeto de lei”, comenta o também líder da CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania). 

Como exemplo da necessidade de tal Projeto de Lei, está um caso ocorrido, em maio, na cidade de Guanambi (BA). Nele, de acordo com a prefeitura, uma jovem com transtorno mental tentou, na UPA do município, atendimento a uma boneca ultrarrealista. A mulher foi, posteriormente, orientada a voltar para casa. “Esse caso evidencia que essas pessoas estão nitidamente precisando de terapia e não estão sabendo pedir”, observa. “A vida humana não pode ser ‘simulada’!”, enfatiza o deputado. 

Esse contexto, porém, destaca outro detalhe que merece ser pontuado. Cada um desses PLs e cada uma dessas atitudes parlamentares apenas, de certa forma, realçam grande parte do modo de raciocínio da sociedade brasileira, bem como evidencia uma base de comportamento moldada através da influência do hábito de consumo do mundo moderno. Ainda que o setor de bonecas em geral tenha faturado US$ 24 bilhões em 2024, um relatório da Market Report Analytics embasa esse cenário ao destacar que o mercado reborn chegou a US$ 200 milhões naquele ano. 

No Brasil, uma loja mineira chegou a lucrar, mensalmente, R$ 40 mil com o mercado de bebê reborn. Uma única boneca, inclusive, pode chegar a R$ 12 mil, valor correspondido pela sua produção manual com detalhamentos minuciosos, contribuindo para seu senso de exclusividade. 

Para a professora do departamento de sociologia da UnB, Christiane Machado Coêlho, esse contexto mostra uma inversão na ordem dos ditados populares, passando de ‘penso, logo existo’ para ‘tenho, logo sou’. “É nessa relação de consumo, formação de identidade, individualismo e realização de desejos que o mercado de bebê reborn se expande”, explica. 

Nesse meandro, os avanços tecnológicos, ao mesmo tempo, trouxeram alterações profundas na forma de se fazer a conexão com o outro e ampliaram os canais de comunicação. Isso faz com que a distinção entre os mundos real, imaginário e ficcional se expandam e, também, se confundam. Certos eventos envolvendo a evolução do contato humano com ecossistemas provenientes da ampliação do convívio com a realidade virtual corroboram com esse cenário. 

Há seis anos, Akihico Kondo se casou com Hatsune Miku, à época, uma estrela de realidade virtual. Christopher Alexander Stokes, se casou, em 2023, com Mimi, boneca que personificou o chatbot de mesmo nome. Isso mostra que a inteligência artificial, essa programada por seres humanos, vem dando respostas automáticas e pseudo-humanas. 

E os bebês reborn, na visão da professora do departamento de sociologia da UnB, são um item que tem direcionado muito dinheiro e investimento no que tange a humanização de objetos inanimados. É o que mostram os dados da ABA (Associação Brasileira de Artesãos). Já em 2024, a produção de bonecos ultrarrealistas cresceu, no país, 35%, graças aos impulsos do e-commerce. Como impacto, a professora do departamento de sociologia da UnB observa que as fronteiras entre o real e o fictício acabam criando realidades paralelas, substitutivas, alienantes ou reintegradoras. Na mesma linha, a profissional pondera que a relação entre o real e o imaginário é capaz de atingir, gradualmente, diferentes dimensões da existência a ponto de impactar a subjetividade. “A automatização da vida e a burocratização da sociedade, de forma cada vez mais digital, têm criado sociedades em redes e os ‘info-excluídos’, fazendo com que os bebês reborn sejam um fenômeno que talvez passe, anda que esse processo, mais amplo, tenha vindo para ficar”, avalia. “Que não esqueçamos que somos humanos e que fomos nós mesmos que criamos estes seres e esta tecnologia”, clama Christiane.