Para médium, o momento atravessado pelo mundo é uma guerra contra o egoísmo
Apesar da Gripe Espanhola, também conhecida como Influenza H1N1, ter acometido aproximadamente 100 milhões de pessoas entre os anos 1918 e 1919, o coronavírus é uma pandemia que está causando temor na população. Até o momento da finalização deste texto, o vírus já foi responsável por levar a óbito 58.129 pessoas no mundo. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o número está em 432 mortes. Só no estado de São Paulo foram confirmados 260 falecimentos em decorrência da doença.
Porém, o mundo não está enfrentando, atualmente, apenas a referida pandemia. Para o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, a população mundial está atravessando algo que chama de ‘infodemia’, uma overdose de informações. “Essa infodemia é quase tão perigosa quanto à pandemia causada pelo coronavírus porque, a partir delas, as pessoas começam a tomar atitudes que não deveriam, como tomar remédios que outros dizem fazer bem, por exemplo. Isso consequentemente acaba criando um clima de terrorismo”, comenta o jornalista e professor de jornalismo das faculdades ESPM-SP e Cásper Líbero, Jorge Tarquini.
A partir disso, se percebe a força que as chamadas fake news estão tendo em meio a um cenário de incertezas e receios. Segundo a jornalista e coordenadora do curso de jornalismo da ESPM-SP, Maria Elizabete Antonioli, uma parte da informação que se recebe, na verdade, não é informação, mas sim desinformação. São relatos falsos postados nas redes sociais que acabam se multiplicando na medida em que há o compartilhamento. “Isso é muito perigoso, pois as pessoas mais ingênuas acabam acreditando no que leem por acharem que a mensagem é verdadeira”, teme.

Imagem: Agência Envolverde
Visto esse cenário, o Ministério da Saúde e o Estadão Verifica criaram números de WhatsApp com o intuito de as pessoas enviarem conteúdos que julguem falsos para que as instituições façam a verificação da veracidade dessas informações e de suas respectivas páginas. Maria Elizabete e Tarquini também elencam alguns outros cuidados para que a população se previna das Fake News, como a checagem da data e da fonte da notícia. Ficar atento ao estilo narrativo, à linguagem e copiar as aspas que aparecem em determinado texto para verificar se aquele conteúdo aparece em outro lugar que aborde o mesmo tema são outras atitudes cabíveis.
Nesse universo, porém, existe outro tipo de fake news, que é aquela em que o indivíduo compartilha uma notícia verdadeira, mas que não aconteceu agora. “As pessoas têm compartilhado coisas fora de contexto, como é o caso dos saques em supermercados de São Vicente. Ora, essa noticia é de 2013”, lembra o jornalista e professor de jornalismo das faculdades ESPM-SP e Cásper Líbero, Jorge Tarquini.
Para a jornalista e coordenadora do curso de jornalismo da ESPM-SP, Maria Elizabete Antonioli, portanto, o mais importante é confiar na informação jornalística por ser um material qualificado. “É muito difícil alguém que não tenha estrutura de cobertura jornalística tenha uma informação que a grande imprensa, que é aquela preparada para apurar, não tenha”, salienta Tarquini.
Veja abaixo, uma lista de sites e agências de notícias que podem ser aliados na averiguação da veracidade dos conteúdos online:
O problema, porém, não está apenas nas fake news em si, mas, assim como levantaram os profissionais da imprensa, na forma como as pessoas recebem essas notícias, sendo elas falsas ou não. A desinformação, portanto, pode criar um clima de tensão na população e fazê-la adotar novos perfis de comportamento.
Na Alemanha de 1974, o jovem escritor Johann Wolfgang von Goethe transformou com seu livro Os Sofrimentos do Jovem Werther a forma como as pessoas enxergavam o suicídio, fazendo, assim, haver ocorrências em massa do ato, denominando o novo comportamento como ‘Suicídio por Imitação’ ou simplesmente ‘Efeito Werther’. Pois bem, hoje com o coronavírus está ocorrendo uma situação semelhante, afinal, com o temor e a insegurança vividos pela população, a psicóloga e arteterapeuta Clarice Batista de Almeida acredita que a sociedade esteja vivenciando uma espécie de desespero por identificação.
Clarice explica que o fenômeno do contágio social pode trazer reações e comportamentos em grupo que são disparados por um motivo que atinge muitas pessoas ao mesmo tempo, o que leva o indivíduo, subjetivamente, a dar um lugar àquele sentimento ou medo já existente em si mesmo. “A questão é que a história particular de cada um pode se juntar ao momento social emergencial e potencializar o desenvolvimento do pânico”, esclarece. “Independente de conflitos ou traumas pessoais, já imaginou quando eles se juntam?”, questiona.
Para que as pessoas evitem ter a sensação de pânico durante a pandemia, a psicóloga e arteterapeuta elencou algumas atividades e ações para suavizar a permanência dentro de casa.
Atividades:
- Aquelas em que se identifique positivamente são gratificantes, constrFoto: Blog Lúcia Helenautivas, relaxantes e ampliam a criatividade.
- Medite, pois abre caminho para o acesso à sua intuição e à sua essência: ser quem você é.
- Equilibre momentos de atividades físicas ou mentais com momentos de repouso. - Crie uma rotina saudável, sem excessos ou só para fazer algo em função de ansiedade ou medo. Procure descobrir sinceramente o que lhe traz bem-estar.

Ações:
- Voltar seu olhar para a vida e não para a doença.
- Fazer um exercício interno de percepção versus realidade: Elucidar o que de fato está acontecendo e diferenciar do que imagina que está ocorrendo.
- Transformar essa inédita situação em oportunidade para aprender a cuidar do que é de fato valioso para si e não supervalorizar o perigo.
- Escolha notícias e informações que contribuam para ampliar sua consciência. Isso ajudará na aquisição de segurança.
- Não espere ser contaminado. Crie uma atitude interna de abertura para a solidariedade, compreensão e amorosidade para com você e os demais.
- Caso haja contaminação na família, adapte-se à necessidade de cada dia.
Por fim, a psicóloga e arteterapeuta Clarice Batista de Almeida lembra que a palavra ‘Pânico’, na mitologia grega, vem do Deus Pã e significa ‘Tudo’. Apesar de temido e assustador, ele também era conhecido por ser alegre e protetor. “Dentro de todos nós mora também um certo Deus Pã. É possível, portanto, escolher qual das facetas dele se quer potencializar neste momento”, propõe.
Mesmo com a análise da forma como o ser humano recebe cada momento de vida a ele oferecido, tem situações, como a presente, que requerem respostas que não podem ser dadas para qualquer um justamente porque tangem crenças e religiões. Mais do que isso, existem questões que só podem ser respondidas se olhadas dos pontos de vista astral e transcendental.
Muitos devem pensar que o momento atravessado pelo planeta é um castigo, um período penoso que deve ser enfrentado em meio a muita dor e sofrimento. Para a especialista em exoterismo Juliana Viveiros, porém, a Terra não está se revoltando contra nós e os espíritos guias e mestres não estão nos deixando ou ateando doenças fazendo com que tudo fique à mercê do nada. “São épocas de transformação necessária. Para que isso aconteça, é preciso que cada um entenda quais pontos necessitam de desenvoltura e, assim, consiga ser luz”, explica.
Ainda assim, para diminuir esse temor, é necessário que os governantes tomem posturas de combate ao coronavírus. No Brasil, por exemplo, o presidente Jair Bolsonaro sugere uma estratégia de isolamento apenas para idosos, o que, de acordo com projeções feitas pelo instituto londrino Imperial College, ainda poderia levar a óbito 529 mil pessoas. As suposições da instituição ainda apontam para números mais alarmantes, como 627 mil mortes em caso de reclusão social leve e 1,1 milhão de falecimentos caso não haja nenhum tipo de controle de circulação. Como apontam as previsões, o mais indicado é que seja feito um retraimento social intensivo, o qual ainda assim levaria à morte 44 mil brasileiros.
Segundo a médium Mary Affonso de Almeida, o período de isolamento está servindo para que as pessoas vejam o quanto é triste não ter contato com o outro. “O que está acontecendo é uma aula que serve para tirarmos proveito de tudo aquilo que não damos valor e, assim, passar a dar, como, por exemplo, a liberdade, a convivência, a saúde e a fartura”, explica. “Temos que perceber o quanto nós precisamos uns dos outros, o quanto nós somos dependentes uns dos outros!”, destaca.

Foto: MastertechLimpeza ou não, esse é um momento que a Terra precisa passar justamente para ter um respiro, um alento que parece estar devolvendo a vida da forma como foi entregue neste plano. Prova disso é o que tem sido observado em cidades como Veneza, na Itália. No local, os canais voltaram a ficar limpos e a receber a fauna da região, como patos e golfinhos. Tudo isso ocorreu graças à retração das atividades industriais e também de políticas de isolamento, atividades essas que fizeram uma transformação na qualidade do ar e da paisagem.
Para o biólogo Marcos Roberto Sá Nogueira, é muito satisfatório falar de vida e, principalmente, da luta incessante da natureza em recuperar o que nós, seres humanos, fazemos involuntariamente ou até mesmo voluntária e conscientemente. “No caso dos canais de Veneza, se trata de uma recuperação ‘selvagem’, ou seja, mais uma obra da natureza, que são águas límpidas, transparentes e repletas de cardumes de pequenos peixes. Aqueles que possuem uma percepção maior da vida, principalmente da vida do planeta, chegam a se emocionar”, comenta.

Foto: Jornal O PovoAlgo que explica ainda mais o motivo de cidades como Veneza estarem recuperando sua qualidade de água e voltando a ter uma fauna sadia é o que mostra a Agência Espacial Americana, Nasa. No início de março a instituição teve divulgadas imagens de satélite que mostravam o declínio da poluição em cidades da China. Ainda de acordo com a agência, a emissão de carbono no país observou um declínio de 100 milhões de toneladas de carbono em apenas duas semanas. No mesmo período de tempo, o território também teve queda de 30% na emissão de dióxido de nitrogênio.
Segundo Nogueira, toda vez em que baixamos nossas emissões e minimizamos os impactos que causamos na natureza o planeta se beneficia. “A conta a ser feita é simples: Quem desmata tem que reflorestar; quem polui tem que despoluir. São dados mensuráveis aplicados e exigidos legalmente”, destaca. “É preciso, porém, fazer uma ressalva: o beneficiado deve ser o planeta, a natureza e não, como hoje, os cofres públicos”, destaca.
Para o biólogo, esse cenário de despoluição e de retomada da vida em alguns pontos do planeta, porém, é passageira. “Não tenho muitas esperanças quanto à conscientização humana”, lamenta. Mas uma coisa é certa, o coronavírus veio para promover mudanças na sociedade, mudanças essas que podem perdurar como uma cultura única que visa a valorização do coletivo e da vida. “Para mim, isso é uma guerra contra o egoísmo. O mundo está muito egoísta, muito egocêntrico. Isso, porém, não é um castigo, é uma chance de aprendizado”, reflete a médium Mary Affonso de Almeida.